Governos da América Latina se afastam de subsídios ao combustível

29 de março de 2017, Nenhum comentário

Autores: Paul Kiernan, Anthony Harrup e Taos Turner (Fonte: The Wall Street Journal – USA por UDOP)

Os subsídios aos combustíveis que os governos da América Latina têm usado por décadas para distribuir a abundância de recursos naturais estão minguando à medida que as maiores economias da região migram rumo a políticas regidas pelo mercado. Isso, por sua vez, está aprofundando a ira da população em um momento de dificuldades econômicas.

O México elevou os preços dos combustíveis em até 20% em 1º de janeiro como parte de um esforço ambicioso que teve início em 2013 para liberalizar o setor do petróleo. A Petróleo Brasileiro SA, a Petrobras, fez ajustes nos preços do diesel e da gasolina cinco vezes desde outubro, numa tentativa de manter a confiança dos investidores e reduzir seu endividamento num momento em que também lida com um gigantesco escândalo de corrupção. Os argentinos viram os preços do gás natural comprimido subirem nas bombas dos postos, após decisão do governo de reduzir os subsídios para o combustível.

As mudanças ocorrem em um momento em que o México procura atrair investimentos do setor privado para a sua indústria do petróleo, que enfrenta dificuldades, e depois que governos mais conservadores assumiram o poder no Brasil e na Argentina. Mas elas ocorrem na esteira de turbulências sociais em partes de uma região onde uma longa história de nacionalismo em relação aos recursos naturais tem tornado a política energética um para-raios político.

O índice de aprovação do presidente do México, Enrique Peña Neto, caiu para 12% o mais baixo para um presidente nas últimas décadas, de acordo com uma pesquisa publicada este mês pelo jornal “Reforma”, depois que as medidas que aumentaram os preços da gasolina, batizadas de “gazolinazo”, geraram protestos e saques.

Os protestos que se estenderam por uma semana e incluíram bloqueios de estradas, depósitos e postos de combustíveis, causaram centenas de prisões e foram responsabilizados por várias mortes. A Antad, associação mexicana de varejistas, afirma que os saqueadores levaram das 681 lojas que fazem parte da entidade mercadorias que, somadas, valem cerca US$ 90 milhões.

O México, o quarto país maior consumidor de gasolina per capta do mundo, citou a alta dos preços da commodity e a recente desvalorização da sua moeda, o peso, para justificar sua decisão de elevar os preços da gasolina no início do mês. O ministro da Fazenda, José Antonio Meade, disse que o país hoje gasta mais com gasolina do que obtém com a venda de petróleo bruto, acrescentando que manter os preços nos níveis de 2016 este ano custaria US$ 10 bilhões para o governo.

No fim de fevereiro, os preços do petróleo no México passarão a ser ajustados diariamente em vez de mensalmente, conforme o país migra para o modelo de preços de livre mercado, que deve entrar em vigor no fim do ano, segundo autoridades.

“O controle de preços não funciona”, diz Gabriel Casillas, chefe de estudos econômicos do Instituto Mexicano de Executivos de Finanças. “Você acha que o ouro retirado das minas mexicanas, porque é mexicano, é vendido abaixo do preço no mercado internacional? Claro que não.”

As autoridades esperam que a mudança vá atrair investidores para uma indústria de petróleo que está décadas atrasada desde que o presidente Lázaro Cárdenas expropriou os ativos de petrolíferas estrangeiras em 1938.

A Petrobras, enquanto isso, gastou até US$ 28 bilhões entre 2011 e 2014 subsidiando os preços dos combustíveis para ajudar o governo a cumprir suas metas de inflação.

Em parte como resultado dessa generosidade, ela hoje acumula o maior endividamento da indústria petrolífera mundial, US$ 123 bilhões, e está correndo para vender ativos e cortar investimentos.

Esforços para recompor as vendas em queda por meio de preços mais altos estão sendo mal recebidos pela população. “Somo um país produtor [de petróleo], acho que o preço da gasolina deveria ser a metade do que é”, diz José Marcos Marques, um taxista de 38 anos do Rio de Janeiro. “Eles estão obrigando nós, consumidores, a pagar o preço pelo o que aconteceu [na Petrobras].”

A nova política da empresa busca paridade com os preços globais dos combustíveis, além de uma margem para cobrir as flutuações cambiais e outros riscos. Enquanto anteriormente ela ajustava seus preços apenas esporadicamente — com frequência passando mais de um ano sem aumento algum —, a nova política defende ajuste pelo menos uma vez a cada 30 dias.

“A companhia precisa reagir aos movimentos dos preços internacionais e é isso que ela está fazendo, nada a mais”, respondeu o diretor-presidente da Petrobras, Pedro Parente, quando foi questionado sobre a alta dos preços diante de câmeras de TV no início do mês. “É muito importante para nós que a sociedade entenda o papel da Petrobras neste processo.”

A cotação da ação da Petrobras mais que dobrou entre maio e outubro do ano passado, quando o presidente Michel Temer, que assumiu o cargo em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff, procurou direcionar a empresa para uma gestão mais voltada para o mercado.
Parente é o primeiro diretor-presidente da Petrobras que veio diretamente do setor privado desde 1999.

Nem todos os países da América Latina estão seguindo esse modelo. A Venezuela, rica em petróleo, elevou os preços da gasolina apenas uma vez nos últimos 20 anos. Apesar do aumento de mais de 6.000% em fevereiro do ano passado, o país ainda conta com a gasolina mais barata do mundo, ao preço de cerca de US$ 0,01 o litro. A manutenção desse subsídio — visto como uma questão de sobrevivência para o regime do presidente Nicolás Maduro — tem sido uma das políticas que forçam o banco central do país a imprimir moeda e levaram o governo à beira da moratória.

Leia na íntegra:
http://www.udop.com.br/index.php?item=noticias&cod=1146517

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